Entrevista com o comissário de bordo Léo

Hoje, trago uma entrevista que eu fiz com o Léo. Ele é locutor, cantor e também é comissário de bordo.


Nós conversamos sobre profissionais da voz, sobre como o mercado de locução se adaptou ao longo dos anos, sobre como é a profissão de comissário e bordo e muito mais. Se quiser assistir a entrevista de o play abaixo, ou continue lendo!

Senhoras e Senhores, sejam bem vindos a Miami. São 7 Horas e 35 Minutos, Hora Local. Para a sua segurança, permaneçam sentados até o completo estacionamento da aeronave e que o sinal de afivelar cinto seja apagado…


Léo: Bom, hoje sou comissário de bordo há 8 anos, na companhia aérea brasileira Avianca.

Antes de entrar na aviação, eu já tinha feito o curso de locução. Desde o começo, toda vez que eu falava no PA (Passenger Address), o alto-falante, chamava  a atenção de alguns colegas que me falavam: “Nossa, sua voz é bonita”, e eu falava: “É, porque eu sou locutor também, tenho registro profissional, fiz o curso…”

Regina: É por isso que chamei o Léo aqui. Ele é um profissional que usa a voz e teve essa habilidade desenvolvida no curso do Senac.

L: Sim, um curso técnico no Senac, que durou de 6 a 8 meses.

R: Para tirar o direito de ter o registro profissional.

L: Exatamente.

R: E por que você fez o Senac e tirou o registro?

L: então, antes de eu entrar na aviação, fiz Jornalismo. Consegui completar 1 ano. Eu fiz 3 faculdades diferentes de Jornalismo, por que começava e desistia… A que fui mais longe foi na Cásper Líbero.

R: Tua intenção era fazer jornalismo mesmo.

L: É. Tenho uma grande amiga dessa época da faculdade que colocou no ar a BandNews FM. E eu me apaixonei por rádio! Eu tinha muita proximidade com ela.

R: A rádio é apaixonante mesmo. E quando pensamos em locução, a primeira coisa que pensamos é rádio.

L: É, eu já gostava porque eu queria fazer telejornalismo. Desde que me conheço por gente, eu pegava os jornais de casa, vestia um blazer do meu pai e ficava sozinho no quarto lendo as notícias, impostando voz e tal. Lógico que era ruim… Depois que essa minha amiga entrou no rádio, fiz umas gravações sozinho, em casa. Eu não tinha técnica nenhuma, não sabia o que era locutar. Eu só ouvia e tentava imitar.

R: E esse era o primeiro passo.

L: Sim, mas na época você vê como evolui a locução. Quando eu era moleque, o padrão de locução era um Cid Moreira, com aquela voz diferente, impostada.


Hoje você vê como é mais informal, tanto na TV até no rádio.

R: Sim, até no Jornal Nacional o William Bonner está tentando quebrar de todas as formas essa seriedade, tentando se aproximar mais. Mas isso é por causa da internet.

L: Exato. Desde moleque eu queria fazer telejornalismo. E quando tive contato com o rádio, fiquei apaixonado, porque, embora o telejornalismo tenha agilidade, o veículo mais ágil de todos é o rádio, é o primeiro lugar que a notícia é dada.

R: E é confiável. Hoje a tecnologia tem isso, mas tem que procurar fontes confiáveis.

L: não é qualquer um que porta um microfone e vai para o ar, formalmente, numa emissora de rádio…

R: É um veículo de credibilidade.

L: Então me apaixonei pelo rádio, mas tinha parado a faculdade, e pensei: Vou fazer um curso de locução.

R: Aí você acabou não indo para essa profissão e acabou indo para aviação.

Me conta: como isso te ajudou? Quer dizer, como desenvolver essa habilidade te ajudou, além da aviação? Você fez a locução e não foi para locução comercial, para outros segmentos… Você tem noção de todo o mercado que tem a locução?

L: Hoje em dia não tenho. Mesmo no curso, tínhamos contato. Era um curso técnico mas era um curso rápido. Então tínhamos uma uma vaga ideia do que o mercado tinha. E, mesmo porque, quando fiz, na época o mercado era diferente, porque também o próprio mercado não sabia o que estava acontecendo. Hoje, você tem uma força das redes sociais que na época não existia.

R: Sim, hoje todo mundo é produtor de conteúdo.

L: Não só produzindo conteúdo, como sendo locutor também. No curso, eles davam 5 tipos diferentes de locução que hoje também estão misturadas. Hoje é cada vez mais rara essa diferenciação do locutor qualificado, locutor do fm, locutor do varejo… Hoje você vê telejornal com locução de varejo.

R: E tem profissionais na internet com seus próprios canais, mais engajados com a opinião.

L: Vejo também que o mercado mudou para uma informalidade. Não digo que ficou ruim, mas que mudou a forma de você locutar.

Para chamar a atenção, tem que estar cada vez mais informal, justamente por causa da internet. não existe mais formalidade.

R: Acho que as máscaras estão caindo todas. Tem a máscara que é: quando você vendia um produto, você fazia uma pose. Hoje não. As poses caíram. Os valores se inverteram. Por isso, o que se procura atualmente é o real.

L: O locutor de antigamente era diferente, pois era de uma época em que você tinha um mercado muito bem definido. Se você quer ser um locutor de propaganda, então precisa fazer daquele jeito específicos…. O profissional tem que se inventar, porque o próprio mercado não sabe o que ele quer. E o mercado vai atrás de quem está chamando atenção, de quem está tendo destaque, de alguma forma…

R: Como comunicador.

L: O importante é se comunicar.

R: Como isso ajudou na profissão de comissário de bordo? Como isso foi um diferencial?

L: Se comunicar é importante. A forma como você se comunica com o seu cliente, e são passageiros e são nossos clientes, é importante pelo tipo de trabalho que fazemos à bordo da aeronave. Lógico que é trabalho de persuasão, de fazer a pessoa voltar, que é um trabalho que eu adoro.

R: Um trabalho de hostess.

L: Mas também tem um background do trabalho, que não vai aparecer toda hora, que é o trabalho da segurança à bordo. Na verdade é o principal, mas não é para aparecer.

Então, quanto melhor você se comunicar com seu passageiro, dentro de uma aeronave, mais seguro está o seu voo, no sentido de que em alguma emergência, você tem ele com você.

R: Ele confia em você.

L: Você chamou a atenção dele para um ponto, em fazer a demonstração de segurança… Você precisa comunicar. E um trabalho de segurança, quanto melhor se comunica, mais seguro vai ser.

Toda vez que faço um speech à bordo, não estou lendo um cartão ou um livro, estou comunicando ao passageiro onde tem saídas de emergência, chamando a atenção dele para que ele saiba que tem uma saída atrás dele, e não lá na frente.

R: Isso que você está me falando é super interessante, porque você não está focando na sua voz, mas em quê?

L: Estou focado em querer passar uma mensagem importante, naquele momento.

R: Naquele momento, que tem gente que está com medo, que não está nem aí, tem gente que presta atenção de alguma forma…

L: No mínimo, você precisa articular muito bem as suas palavras.

A forma precisa ter um jeito que pelo menos fique no subconsciente da pessoa. E tenho colegas que falam que adoram me ouvir falando, adoram viajar comigo.

R: Porque você está passando conforto, segurança, tranquilidade…

L: Tudo isso tem que ser passado. É quase instintivo porque eu já tenho esse perfil. Você, como comissário de bordo, não está só por segurança ou só para fazer o cliente voltar. É tudo misturado, ao mesmo tempo.

R: Você é a empresa ali recebendo a pessoa.


L: Você É a empresa.

R: E na locução também tem isso. Você, quando assume aquele P.A., você é a empresa assumindo, literalmente, isso no microfone e passando tudo isso que você falou.

É como na locução: ter a noção do momento que a pessoa está recebendo a mensagem, a emoção, a intenção do que você quer passar, que não está na forma, mas na cabeça e no sentimento. Está na memória emocional, do que é isso, do que é sentir segurança, aconchego…O último ponto é a forma.

L: Nesses 8 anos, passei 3 treinando falando sozinho todas as locuções que eu tinha que fazer à bordo.

R: Você treinava e se ouvia.

L: Treinava e me ouvia. E como eu treinava no chuveiro por causa da acústica, embora acústica de banheiro seja ruim, não é boa para treinar. Mas você tinha alguma noção.

R: Para isso serve o guarda-roupa também!

L: Eu fazia assim, uma concha com a mão.

L: Então eu treinava, andava na rua falando sozinho.

Até também porque eu queria falar algo não decorado, sem precisar ler, porque uma outra coisa que é importante: quanto melhor você se comunica, mais credibilidade você passa no que você está falando.

Tanto que eu sei que a profissão que exerço, é alvo de algumas chacotas… De que comissário de bordo não sabe falar no microfone

R: Isso foi um diferencial para você?


L: É um diferencial mais do que foi, mesmo porque são muitas as variáveis que a companhia aérea tem que avaliar para contratar um comissário.

E se ele se considerarem mais esta variável, aí fica impossível contratar alguém, porque precisa ter perfil de atendimento com o cliente, de segurança…

R: Mas o profissional que quer se destacar…

L: Temos, no mínimo, aula de alocução, nos treinamentos.


R: Tem aulas de locução?

L: Temos as aulas de alocução a bordo.

R: A locução?

R: Não é aula de locução com técnica de locução, mas nos mostram como temos que falar. Só que ninguém aprende técnica de locução.

É por isso que acabo me destacando entre meus colegas.

L: E os passageiros já te deram feedback?

L: Já tive feedback de passageiros americanos falando que meu sotaque é perfeito. Porém recebo muito mais de colega. E aí já falo: “Eu sou locutor também”.

R: Isso traz um diferencial para todos os profissionais. Para quem trabalha com vendas no telefone ou atendente, qualquer atividade hoje você tem a comunicação como base, e saber falar, prestar atenção no seu posicionamento, no timbre, no volume…

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